quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Storyboard: A "HQ do Cinema"

A técnica de desenhar as cenas de um filme, antes delas serem rodadas, ainda se mostra uma verdadeira aliada dos diretores na hora de materializar suas idéias
- Karina Gouvêa

Apesar da semelhança de linguagem e recursos gráficos das histórias em quadrinhos, o storyboard é uma etapa que serve de ferramenta para o cineasta na hora de realizar um filme. Na verdade, existe o storyboard que acompanha toda a produção, mais propriamente chamado de shooting board, e o storyboard utilizado na fase de criação e “venda” de um roteiro para os responsáveis pela aprovação e liberação das verbas.

Para os cineastas, o storyboard auxilia na visualização da estrutura do filme, na seqüência dos planos, nos ângulos das câmeras, no ritmo do filme, nas expressões e ações dos personagens, dando uma noção melhor de como ficará o resultado final de sua obra. Sergei M. Eisenstein (O Encouraçado Potemkin), Federico Fellini (Amarcord) e Akira Kurosawa (Os Sete Samurais) desenhavam os próprios storyboards – uma raridade no meio cinematográfico. Fellini costumava fazer seus esboços em guardanapos de restaurantes romanos, retratando situações a sua volta ou caricaturas. Já o japonês Akira Kurosawa preferia visualizar seu filme em storyboards em tamanho real, pintando aquarelas gigantescas, em escala natural. Em relação ao storyboard de seu filme Ran – o cineasta demorou dez anos para fazer o desenho de todas as cenas -, Kurosawa teria dito que se tratava de um “ensaio geral”. Algumas dessas raridades estão expostas em galerias de arte como verdadeiras obras-primas.

FILMANDO COM STORYBOARDS
O storyboard serve de planejamento visual das cenas a serem filmadas. É um esboço do que o filme será e o que se espera dos integrantes da equipe em cada cena. Não precisa ser tão perfeccionista como o de Kurosawa. Pode ser simples como alguns esboços rápidos em um bloco de papel – como Alfred Hitchcok fazia poucos minutos antes de filmar uma cena. A finalidade principal é organizar pensamentos e idéias, representando-os de uma maneira que a equipe saiba o que o diretor quer dela.

Segundo o designer gráfico Toni Rhoden, para se fazer um storyboard não basta apenas saber desenhar ou ter um roteiro em mãos. “O desenhista precisa conhecer área de enquadramento, profundidade, perspectiva, eixo de câmera, movimentos dela (carrinho, pan, tilt, steadycam...). Não é necessário acrescentar muitos detalhes, tipo ‘a cor da meia do mendigo’, pois para isso existe a função de figurino e/ou cenário. O storyboard, basicamente, confere um dinamismo e praticidade para o set de filmagem, pois o diretor, fotógrafo, operador e ator (principalmente estes) têm uma noção única de como aquela seqüência será. Isso evita uma perda de tempo desnecessária, explicando para o ator onde ele vai se posicionar e onde a câmera deve estar. Infelizmente, no Brasil, a prática do storyboard não é levada a sério, enquanto que, na indústria americana, o desenhista tem uma participação importante no desenvolvimento da produção. James Cameron tem até seu próprio desenhista, Jeffrey Lynch. Em alguns casos, é o próprio storyboarder quem define a posição da câmera e da iluminação em determinados planos.”

“Obviamente, storyboard é muito mais do que isso e a prática leva o desenhista a conhecer muitos outros detalhes importantes”, explica Rhoden. “Para marinheiros de primeira viagem, basta as noções que eu sugeri acima e ter a humildade de perguntar ao diretor sempre que surgir uma dúvida. Outra dica é construir uma ‘janela’ de papelão, com o enquadramento do trabalho final, ou seja, se for para vídeo, cinema, cinemascope, etc. Isso ajuda muito na hora de desenhar. Ter em mãos um boneco articulado também.”

Se para alguns o storyboard é um aliado na hora das filmagens, para outros é completamente descartável. Veja que curioso: o diretor e roteirista Karim Aïnouz, de Madame Satã, fez um minucioso storyboard do longa, mas no primeiro dia de filmagem não o achou. Acabou filmando assim mesmo. No segundo dia, seguiu o storyboard e as seqüências não foram utilizadas no filme. A partir do terceiro dia, não o usou mais.

Seja lá como for, o fato é que, mesmo com toda a tecnologia atual, o uso do storyboard tem se mostrado de grande ajuda. A equipe de Marcelo Siqueira, supervisor de efeitos digitais da TeleImage, responsável pelo filme Ilha Rá-Tim-Bum em O Martelo de Vulcano, reuniu-se com a diretora Eliana Fonseca e os roteiristas Flávio de Souza e Roberto D’Avilac quando ainda estavam sendo feitos o roteiro e o storyboard para ver a viabilidade dos efeitos que seriam criados para o filme. Baseado no roteiro, Siqueira desenhava os efeitos no próprio storyboard, que era fielmente seguido na filmagem em estúdio em sistema digital de alta definição e depois transferido para película 35 mm.

Como se pode ver, usar ou não o storyboard não é uma questão de escolha e sim de bom senso. Mais do que as idéias visualizadas num pedaço de papel, ele possibilita filmar aquilo que realmente interessa, segundo a ordem mais prática e não a ordem natural do filme – pode-se filmar todas as cenas que utilizarão um determinado cenário sem se preocupar com a ordem em que elas aparecerão -, o que significa economia de recursos e tempo. Algo extremamente importante quando o assunto é cinema.

CURSOS DE STORYBOARD

- Daller Escola de Cinema
Rua Bahia, 652 - Centro - Belo Horizonte - MG
Tel.: (31) 3222-1304

- Miami Ad School/ESPM
Rua Natingui, 1.487 - Alto de Pinheiros - São Paulo - SP
Tel.: (11) 3814-4590
info@masespm.com.br

Paulista Cultural
Av. Paulista, 2.518, cj. 51 - São Paulo - SP
Tel.: (11) 3257-4472
paulista@paulistacultural.com.br

Você pode encontrar dicas de como fazer um storyboard no site da Funarte.

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